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Brasileiros abrem espaço na criação de software para iPhone

Publicado segunda-feira, 22 de março de 2010 às 11:56 por brsa.

22/03/2010 - Valor Econômico

Cenário: País tem 4,8 mil pessoas cadastradas pela Apple para desenvolver aplicativos para seu telefone

Noel Rocha trabalha de dia em uma companhia de software para telefonia e, nas horas vagas, faz um voo solo no mercado de aplicativos para iPhone. Rocha é o criador do software Alaga São Paulo, que mostra as regiões onde há alagamentos na cidade nos dias de chuva. Trata-se de sua criação mais famosa, com 16 mil downloads no primeiro mês de lançamento. Mas Rocha já desenvolveu outros dois programas, oferecidos gratuitamente na loja App Store. “Coloquei de graça para que as pessoas me conhecessem. A partir daí, as empresas começaram a me contratar para desenvolver aplicativos”, afirma.

Rocha não é o único brasileiro a apostar no mercado de aplicativos para iPhone. Muitos programadores estão aproveitando a crescente demanda por esse tipo de software para ampliar sua área de atuação. De acordo com informações da Apple, existem no Brasil 4,8 mil pessoas cadastradas para desenvolver programas para o iPhone (lançado no Brasil em setembro de 2008) e o computador “tablet” iPad, que chega ao mercado americano no dia 3 de abril.

No mundo, há 125 mil desenvolvedores cadastrados pela companhia. “A maioria dos aplicativos em português foram criados no Brasil”, observa Fabio Ribeiro, engenheiro de sistemas da Apple. A empresa não divulga o número de aplicativos ou sua demanda no país. Segundo Ribeiro, a empresa avalia em média 10 mil projetos por semana no mundo todo e a maioria é aprovada. Atualmente, a Apple possui mais de 150 mil aplicativos disponíveis em 77 países. O total de downloads supera 3 bilhões.

Para participar desse mercado, é preciso cadastrar-se na Apple e pagar uma taxa de US$ 99 ao ano para ter acesso ao sistema operacional do iPhone e às ferramentas para a criação dos aplicativos. O custo da criação é dividido: 70% é arcado pelo desenvolvedor e o restante, pago pela Apple. Quando finalizado, ele pode ficar disponível na loja de forma gratuita ou paga - com valor mínimo de US$ 0,99 por download. A opção de oferecer o produto para outros países é uma decisão do criador do programa. Ribeiro observa, porém, que nem todos que se cadastram para ter acesso às ferramentas chegam a produzir aplicativos. “De fato, para produzi-los é preciso ter conhecimentos que não são ensinados na faculdade”, afirma.

Noel Rocha era usuário de computadores da Apple e do iPhone e decidiu criar aplicativos que considerava úteis para os consumidores. Além do Alaga São Paulo, ele desenvolveu o Portabilidade Fácil, que permite visualizar a operadora de quem faz a chamada e já teve 36 mil downloads, e o Taxímetro, que traça rotas e informa o valor médio em bandeira 1 e 2. O programa também possui 36 mil usuários, em 32 cidades do país. Rocha começou a desenvolver esses sistemas há um ano e meio e hoje está com cinco clientes, entre eles uma montadora de automóveis. “Para a montadora, vou criar um aplicativo também para o iPad”, diz.

No caso dos aplicativos para o iPad, o investimento é maior: US$ 600 por ano. Mas, na avaliação de Rocha, o gasto é válido. “O número de profissionais que realmente desenvolvem aplicativos para celulares é pequeno”, observa. Ele também já começou a criar programas para o Android, sistema operacional para celulares do Google. Por enquanto, o fluxo de encomendas é irregular, o que o levou a manter-se empregado. “Assim que conseguir um nível de encomendas mais estável, pretendo ter minha própria empresa”, afirma.

Mas não são apenas programadores independentes que se interessam pela nova área de negócios. A Ci&T, companhia brasileira voltada à terceirização de serviços de tecnologia, está investindo R$ 2 milhões em um laboratório dedicado a produzir aplicativos para plataformas móveis. A empresa, que prevê um faturamento de R$ 100 milhões neste ano - metade desse resultado com vendas ao exterior - , estima que, em três anos, pelo menos 20% do seu faturamento será obtido com a venda de aplicativos para celulares e para o iPad.

Segundo Cesar Gon, presidente da Ci&T, a meta para 2012 é chegar a um faturamento de R$ 200 milhões, sendo R$ 40 milhões vindos da nova área de negócios. “Grande parte desse resultado virá das vendas para os Estados Unidos e o Japão“, prevê. Para o executivo, o desenvolvimento dos aplicativos simultaneamente ao lançamento dos aparelhos consiste em uma grande oportunidade para as empresas brasileiras se posicionarem internacionalmente. “Em alguns anos, o mercado de aplicativos para celulares se consolidará e ficará mais difícil concorrer. O momento de entrar é agora“, diz. O primeiro aplicativo a ser lançado pela empresa será para o iPad, a pedido de uma indústria de bens de consumo. O lançamento será feito mundialmente. A meta para o ano é lançar pelo menos um aplicativo por mês.

A Ínsula, empresa do grupo Neogama/BBH dedicada ao marketing para internet, também aposta no crescimento exponencial do mercado de aplicativos como ferramenta de publicidade. A empresa já desenvolveu sete programas, incluindo sistemas para as áreas de seguro e planos de previdência do Bradesco. Fabiano Coura, diretor da área digital da companhia, afirma que os clientes da agência de publicidade começaram a solicitar aplicativos para o iPhone logo após seu lançamento, em 2008. “Antes do lançamento do iPhone no Brasil já havia em torno de 250 mil aparelhos no país. No caso do iPad, ninguém ainda tocou nele, mas as vendas no mundo já ultrapassam 120 mil unidades. São plataformas cuja procura cresce rapidamente e chama a atenção”, diz.

A empresa teve dificuldades para encontrar desenvolvedores. Por essa razão, Coura decidiu contratar produtores de aplicativos e montar sua própria área de desenvolvimento. Segundo o executivo, 22% da receita da empresa vem da produção de aplicativos para clientes. “Acredito que esse volume tende a crescer nos próximos anos”, diz. A empresa dedica-se agora a desenvolver versões dos sete aplicativos para o iPad e também para o Android e tem em sua carteira outros três pedidos de clientes.

A agência Maya também passa pelo mesmo processo, diz Adriano Santageli, sócio e líder de desenvolvimento da empresa. A Maya produzia publicidade para internet e, em março de 2008, criou uma área voltada à telefonia. O primeiro aplicativo para iPhone desenvolvido pela empresa foi para a Citröen e teve 170 mil downloads. A agência também desenvolveu uma campanha do Ovomaltine para iPhone, que teve 15 mil acessos por semana. “As campanhas foram exitosas e passamos a receber de duas a três encomendas por semana de aplicativos grandes”, diz.

A Ínsula já colocou no ar cinco aplicativos e, até a Copa do Mundo, planeja oferecer na App Store outros 16, relacionados a campanhas publicitárias. “Para o iPad também já temos dois contratos”, afirma Coura. Por conta da demanda, a companhia aumentou a equipe, de oito pessoas em 2008, para 24 profissionais.

Na Maya, 70% dos pedidos são de sistemas para iPhone, mas também há procura para celulares com sistema operacional Android, diz Santageli. O valor pago por uma grande empresa para ter um aplicativo mais complexo, afirma o executivo, pode chegar a R$ 120 mil. Hoje, a área de aplicativos para plataformas móveis responde por 50% do faturamento da Ínsula. “O resultado até 2009 ainda foi fraco por conta da crise. Acredito que neste ano a procura vai crescer de maneira vertiginosa.”

 

Cibelle Bouças, de São Paulo

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