Computer World
12/07/07
O objetivo? Disputar com fornecedores de centros emergentes ou há muito estabelecidos, como Índia, China, Rússia e outros países do leste europeu, com igual nível de competitividade, o fantástico bolo de negócios de terceirização offshore, estimado em 2006 em 75 bilhões de dólares.
Os números apresentados pelos provedores brasileiros impressionam, conforme mostra o estudo 100 Maiores Serviços Corporativos 2007, realizado pelo IDG Brasil e COMPUTERWORLD, com apoio das empresas de consultorias Meka e IDC Brasil. Em 2006, informa o levantamento, o setor de serviços do País movimentou 22,2 bilhões de reais, o que representou um aumento de 17% sobre o faturamento registrado em 2005 (em dólar, a taxa de crescimento foi quase o dobro, em torno de 30%).
Mesmo assim é um aumento significativo se comparado com a taxa de elevação do mercado total de TI, que foi de 12% em 2006, quando a receita chegou a 54,2 bilhões de reais. Mas não é só: a participação dos serviços corporativos nas receitas totais das empresas brasileiras passou de 39% em 2005, para 41%, em 2006. E até 2012, segundo a IDC, deve representar quase a metade do total de gastos com TI no Brasil.
“É um crescimento saudável, apesar das margens de lucros estarem um tanto apertadas”, avalia Mauro Peres, diretor de pesquisas da IDC. “Os serviços de TI crescem mais que os de telecom e vêm nesse ritmo desde 2004, quando a taxa média de expansão chegou a 16,15% – isso depois de dois anos de retração. Para 2007, a IDC prevê uma taxa um pouco menor que a do ano passado, algo acima de 13%. Mas ainda será significativa. O cenário econômico favorece”, afirma Peres.
Na avaliação do Gartner, o desempenho positivo nos últimos anos não é exclusivo da indústria brasileira de serviços de TI. O mercado mundial de serviços, em 2006, de acordo com estudos do instituto de pesquisas e consultoria de negócios, atingiu 672,3 bilhões de dólares e o da América Latina foi de 24,4 bilhões de dólares. “Nossa previsão era que esses mercados crescessem 11%, mas a taxa de aumento foi muito maior, acima de 15%”, conta Ione de Almeida Coco, vice-presidente regional para programas executivos do Gartner na América Latina. Segundo ela, dentro desse contexto, o Brasil ganha papel de destaque no continente.
“O mercado nacional está atraindo a atenção das corporações estrangeiras, que se movimentam fortemente para transferir suas compras de serviços de TI para fora dos Estados Unidos e Europa. A Índia ainda é imbatível como principal alternativa, mas 10% dos executivos das 500 maiores empresas globais, entrevistados pelo Gartner, disseram que já usam o Brasil como fonte de recursos de serviços de TI, enquanto outros 50% pensam em utilizar”, comenta Ione.
Segundo os analistas, o aumento do consumo interno de sistemas de tecnologia da informação e de telecomunicações molda um novo modelo de negócios para as empresas brasileiras, que buscam garantir níveis maiores de rentabilidade. “As organizações ultrapassaram a fase de investir quase todo o orçamento destinado a TI em infra-estrutura de hardware e software e agora estão aplicando boa parte do budget em serviços a fim de ter um foco maior em seu core business e reduzir custos”, sugere Rodrigo Batista, consultor de serviços da IDC.
Não é gratuito, portanto, que o outsourcing seja, entre as vertentes do mercado de serviços (as outras quatro são consultoria, implantação, gerenciamento e treinamento), a que mais cresceu em vendas no ano passado, com um total de 9,2 bilhões de reais, de acordo com o estudo 100 Maiores Serviços Corporativos do IDG. “Por um custo fixo, os contratos oferecidos por muitos fornecedores contemplam não somente os equipamentos, mas ainda a renovação dos mesmos, o gerenciamento contínuo com suporte, manutenção e outros serviços agregados, atraindo cada vez mais os usuários”, exemplifica Batista.
Dentro da área de outsourcing, destacam-se os negócios de terceirização de call center, que têm nos bancos e nas operadoras de telecomunicações seus principais consumidores. Duas empresas apenas, a Contax e a Atento Brasil, faturaram 2,4 bilhões de reais em 2006, cerca de 20% de toda receita obtida pelas dez maiores empresas do ranking das 100 Maiores. “Uma das razões para esse crescimento é que não focamos apenas na oferta pura e simples de call center, mas também em serviços de atendimento ao cliente, televendas, crédito e cobrança”, detalha James Meaney, presidente da Contax, braço da Telemar na área de call center. A receita estimada da companhia foi de 1,3 bilhão de reais em 2006, 17% maior que o obtido em 2005.
Um mercado ainda pequeno, mas que vem apresentando crescimento expressivo, é o segmento de serviços off-shore. É compreensível. “As empresas globais estão evitando colocar todos os ovos numa mesma cesta, como no caso da Índia, por exemplo, que pelos problemas de retenção de pessoal, demanda de oferta e rotatividade por melhores salários pode não estar preparada para expandir os projetos, se necessários”, diz Batista, da IDC. Isso incentiva fortes investimentos em treinamento, na qualificação dos profissionais e na criação de centros de desenvolvimento e manutenção de serviços de software, no Brasil e no exterior.
“O amadurecimento do mercado e a visão de alguns fornecedores nacionais que conseguiram mostrar que têm tecnologia, processos e capacidade de atendimento à clientela acirrou a competição”, acredita César Gon, presidente da Ci&T, empresa de consultoria e desenvolvimento de software localizada em Campinas, que já investiu perto de dois milhões de dólares na ampliação e criação de novas instalações, com objetivo de melhorar a qualidade de atendimento aos clientes globais.
Em resumo, pelo menos no caso da indústria brasileira de serviços de TI, a globalização é considerada uma conquista. “Trata-se de um mercado sem barreiras nem fronteiras”, define Peres.