By César Gon, CEO Ci&T
Originally published at: Informática Hoje, June 2010
Conheça a saga e as descobertas desse CIO e sua curiosa trajetória corporativa ao longo de três décadas: de conselheiro sênior de tendências a jovial observador da rotina cotidiana dos custos de TI.
“Eu trabalho em circunstâncias incomuns”. Assim começa o curioso caso do CIO que não gerava valor, a história de um executivo de TI que começa a carreira como um profissional de elite, com muito conhecimento e desejado pelas melhores corporações. Curiosamente, ele rejuvenesce a cada dia que passa.
Era início dos anos 80, Machado de Assis e Scott Fitzgerald saem definitivamente de cena e a moda agora é imitar o Michael Jackson e os videoclips do álbum Thriller. Ao som de Billie Jean nosso jovem executivo convence a liderança da empresa a colocar um PC na mesa de cada funcionário. Lembra com orgulho daquele dia em que a tecnologia saiu do gélido CPD para fazer parte do dia-a-dia da empresa e ser a ferramenta diária dos “novos” profissionais do conhecimento. E era só o começo. Os anos seguintes seriam uma aventura de ganhos de produtividade, automação e possibilidades de negócio. De repente, não apenas o presidente mas todos os gestores de negócio da empresa queriam ouvi-lo, seguir seus conselhos e entender o admirável mundo novo da computação pessoal.
A cesta dos anos preenche uma década. Os cientistas lançam o telescópio espacial Hubble e marcam um auspicioso início para a década de 90. Já não tão jovem mas ainda carregado de energia, nosso CIO tem saudades de quando falava sobre o futuro e era ouvido diariamente pelo CEO. Já menos lúdicas são as memórias de quando abandonou o futuro e passou a “reportar” o presente para o CFO. Mas como será mesmo que isso aconteceu?
O futuro tinha chegado e parecia estar emaranhado numa teia de computadores interligados ao redor do mundo: a Internet. Não teve muito tempo para entender aquele estranho fenômeno de massa pois, como seu novo chefe havia lhe mostrado, os elevados investimentos em TI pareciam justificar essa subordinação à diretoria financeira da empresa e um cuidadoso foco no presente. Afinal, o balanço da empresa dependia da gestão eficiente desses custos, que cresciam ano após ano, embalados por modismos e siglas cada vez mais anglo-saxônicas e saborosas. Apesar dos esforços, a necessidade de sistemas integrados e a profecia do bug do milênio aumentaram ainda mais os gastos com TI. Foi naquela época que nosso CIO viu sua veia financista desabrochar. Poucos conseguiam produzir planilhas financeiras tão sofisticadas, talvez somente o seu chefe.
O tempo passava e nas curvas dos anos mais uma década se foi. Começa um novo século. Uma verdade inconveniente de Al Gore acelera a reflexão sobre o futuro do planeta Terra e a responsabilidade de uma geração para com a próxima.
Sobre os ombros da explosão da Internet e dos celulares, a tecnologia se massifica e salta das mãos para a mente do consumidor. A tecnologia evolui, torna-se incrivelmente disponível e pervasiva. Uma nova geração passa a ver o mundo através de uma impensável imersão tecnológica. Dispositivos móveis e redes de colaboração vão transformando suas possibilidades sociais e econômicas numa velocidade contada não mais em anos mas em horas. Bolhas de investimentos caracterizam uma tal de “exuberância irracional” e catapultam uma nova geração de jovens empresas de tecnologia a estrelas da globalização, símbolos precoces de uma nova ordem econômica mundial.
Olhando da sacada da vida, nosso herói percebe que os ganhos dos investimentos em TI já não eram mais tão claros para a sua empresa. Uma infindável lista de acrônimos foi implementada e de repente os questionamentos sobre o “valor de negócio” ficaram mais freqüentes. Dê súbito, todos os executivos da empresa tinham suas próprias visões sobre quais desafios e oportunidades estavam a frente. Os mais ousados já navegavam lépidos nas ondas da inovação e referiam-se à área de TI como gargalo de suas ambições de negócio.
Nosso herói mostrou então incrível capacidade de adaptação quando, após um trimestre ruim, ocorreu uma reestruturação na empresa. Os quadros foram reduzidos e seu novo chefe passou a ser o diretor de compras, um jovem de raciocínio ágil, que adorava discutir o passado para entender se os custos da sua área ainda faziam sentido. Passou então a refletir sobre sua carreira. Ao longo de três décadas, ele havia protagonizado uma curiosa trajetória corporativa: de conselheiro sênior de tendências a jovial observador da rotina cotidiana dos custos de TI.
Felizmente a saga e as descobertas desse CIO não terminam aqui. O fim da primeira década do novo século se aproxima. Aumenta o volume da música eletrônica, os óculos 3D retornam às salas de cinema e os videogames conquistam a retina dos adultos.
Nosso herói percebe o paradoxo da evolução da sua carreira justamente no momento em que vivemos o início de mais uma revolução na indústria de TI, com tremendo avanço na sua capacidade de geração de valor. Valor, valor, valor… foi um estalo! Era hora de reescrever o amanhã. E foi naquela madrugada que, enquanto redigia uma mensagem para o presidente da empresa, pensava também que seus filhos tinham crescido, seus netos já caminhavam e, quer saber, era hora mesmo de lutar por aquilo que acreditava ser o melhor para aquela corporação.
Sentiu-se revigorado quando percebeu que, depois de algumas décadas, tinha voltado a falar sobre o futuro. Descreveu sobre os desafios da empresa e porque o sucesso de suas estratégias iriam depender inerentemente das possibilidades oferecidas pela tecnologia. Mostrou que as ambições de agilidade e agressividade na arena dos negócios aliadas à visão de sustentabilidade da empresa só seriam realizáveis com uma revisão do papel da TI. Empolgado, posicionou a tecnologia como a verdadeira “língua franca” da economia multicultural e sustentável com a qual sonha a humanidade. Se a empresa realmente quisesse participar desse futuro, teria que rever a sua visão sobre o papel da tecnologia.
Questionou então quem melhor para encapsular complexidade e tornar os recursos tecnológicos simples e disponíveis onde e quando são necessários? Quem possuiria a visão horizontal e conhecimento da malha dos processos de negócio para candidatar-se a gestor de Valor das abrangentes possibilidades oferecidas pelo uso da TI? Sim, ele mesmo, o nosso herói CIO.
Na manhã seguinte, chegando na empresa, achou curioso ver sua natural ansiedade ser substituída por uma energia e motivação que não sentia há muitos anos. Tomava o seu café expresso sem açúcar quando, zurum, zurum…. chegou uma mensagem de texto para o nosso CIO: reunião na sala do presidente!
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César Gon
CEO, Ci&T
Junho de 2010